Doutor(a), deixa eu te falar sobre três dias de julho que revelaram um risco que a maioria dos médicos com presença digital ainda não parou para calcular.
Em 7 de julho de 2026, a Meta lançou o Muse Image, uma funcionalidade de geração de imagens por inteligência artificial disponível dentro do Instagram. A novidade tinha um detalhe que causou reação imediata: bastava mencionar o @ de qualquer perfil público para usar as fotos daquela conta como referência visual para gerar novas imagens. Sem autorização. Sem notificação. Ativado por padrão.
Em 10 de julho, três dias depois, a Meta reverteu. A funcionalidade de usar fotos de terceiros foi removida após críticas sobre privacidade, uso não autorizado de imagem e risco de deepfakes.
A ferramenta saiu. O alerta ficou.
O que o episódio expõe para o médico que posta antes e depois
A imagem de antes e depois é o tipo de conteúdo que concentra maior risco nesse contexto. Não por acaso: ela tem alta especificidade visual, mostra transformação identificável e carrega implícita a ideia de resultado de um procedimento. É exatamente o material que quem cria propaganda enganosa de tratamentos estéticos precisa.
Durante os três dias em que o Muse Image funcionou com fotos de terceiros, qualquer perfil público era fonte potencial. O médico que mantém um perfil público com imagens de pacientes em antes e depois, mesmo com consentimento, mesmo dentro das condições da Resolução CFM nº 2.336/2023, publicou conteúdo que estava exposto a esse uso sem saber.
O Muse Image foi removido, mas o risco não depende exclusivamente dele. Imagens públicas do Instagram podem ser baixadas manualmente, processadas em ferramentas de IA disponíveis fora da Meta e reutilizadas em contextos que o médico nunca autorizou: anúncios falsos, perfis clonados, propagandas de procedimentos que ele nunca realizou.
E há um agravante que a maioria não percebe: a Meta anunciou em julho de 2026 que passou a exigir rótulo de "conteúdo de IA" em anúncios que usem recursos de geração de imagem, mas também sinalizou que não vai mais remover deepfakes automaticamente apenas por serem deepfakes. O conteúdo manipulado fica no ar com um rótulo, e só é removido se violar outra política, como impersonation ou desinformação eleitoral.
Isso significa que uma imagem sua ou de um seu paciente pode circular modificada por IA e permanecer visível mesmo após você reportar, desde que não enquadre claramente outra violação.
A distinção que o guia da Meta trouxe em setembro
Em 4 de setembro, a Meta atualizou o guia de segurança digital para mulheres, com uma seção específica sobre inteligência artificial. O documento esclarece um ponto que tem gerado confusão em discussões sobre deepfake: rótulo de "conteúdo de IA" não é o mesmo que avaliação de abuso ou fraude.
Na linguagem da Meta, a origem da mídia (se foi gerada ou modificada por IA) e a avaliação do conteúdo (se viola uma política, como uso não autorizado de imagem de outra pessoa para enganar) são processos separados. Um conteúdo pode ser rotulado como IA e ainda assim não ser removido se não houver violação clara de outra regra.
Para o médico, isso tem uma implicação prática: reportar um deepfake com a sua imagem ou com imagens dos seus pacientes alegando apenas que "é falso" ou "foi gerado por IA" pode não ser suficiente. O report precisa enquadrar a violação específica, como uso de identidade de terceiros para enganar, desinformação ou publicidade enganosa, dependendo de como o conteúdo está sendo usado.
O que a Resolução CFM nº 2.336/2023 diz sobre o antes e depois
A resolução permite o uso de imagens comparativas de pacientes em contexto educativo, mas com condições que poucos cumprem integralmente. O conjunto de imagens precisa mostrar evoluções satisfatórias, insatisfatórias e complicações decorrentes do procedimento. O uso exige texto de apoio com indicações, fatores que influenciam o resultado e descrição de complicações descritas na literatura científica. Além disso, é obrigatório o anonimato do paciente e a autorização escrita para uso da imagem.
Essas condições existem para proteger o paciente de exposição indevida e o médico de responsabilidade ética por conteúdo que fuja do contexto educativo. Mas elas não protegem o conteúdo publicado de ser reutilizado por terceiros fora do controle do médico.
O que a Resolução exige como condição para publicar é uma coisa. O que acontece com a imagem depois que ela está pública é outra, e é aí que o risco de deepfake entra.
O que o médico pode fazer
Algumas práticas reduzem o risco sem exigir que o médico deixe de publicar conteúdo de antes e depois.
Perfil privado para conteúdo de paciente. Se o médico mantém o Instagram público para construir alcance, mas tem casos clínicos com imagens de pacientes, pode criar um segundo perfil fechado, destinado apenas a seguidores verificados como profissionais de saúde, para esse tipo de conteúdo. Elimina a exposição a raspagem de imagens por ferramentas externas.
Marca d'água discreta mas visível. Imagens com marca d'água da clínica ou do médico são mais difíceis de reutilizar de forma convincente em materiais de terceiros. Não é inviolável, mas aumenta o custo de reutilização e facilita a identificação de origem quando o conteúdo circula de forma indevida.
Consentimento com especificação de uso digital. O termo de uso de imagem do paciente deve mencionar explicitamente a publicação em redes sociais e, idealmente, prever que o médico reportará usos indevidos que identificar. Isso cobre o médico eticamente e cria um registro de que a autorização foi específica.
Monitoramento periódico da própria imagem. Ferramentas de busca reversa de imagem, como o Google Imagens e TinEye, permitem verificar se fotos publicadas estão sendo reutilizadas em outros contextos. Não é um processo automático, mas uma auditoria trimestral já identifica usos indevidos antes que causem dano maior.
Relatório qualificado, não genérico. Se identificar uso indevido da sua imagem ou de imagens de pacientes, o report para a Meta tem mais chance de resultado quando especifica a violação concreta: uso de identidade de terceiro para fins enganosos, publicidade não autorizada com imagem de pessoa real, ou desinformação em saúde. Report genérico de "conteúdo falso" costuma ser insuficiente.
O episódio do Muse Image durou três dias. A discussão que ele abriu vai durar muito mais. Para o médico que usa antes e depois como parte da comunicação educativa, a questão não é parar de publicar: é publicar com consciência de que conteúdo público tem vida além do que você controla. E ter um protocolo mínimo para quando isso acontecer.
Você já teve alguma imagem sua ou do seu conteúdo reutilizada sem autorização? Como foi a experiência de reportar? Conta nos comentários.
Fontes: Forbes Brasil, "Nova IA da Meta usa fotos do Instagram para criar imagens e é alvo de críticas" (jul/2026); Gizmodo Brasil, "Meta volta atrás: Instagram deixa de usar fotos públicas para criar imagens com IA" (jul/2026); SpaceMoney, "Meta lança gerador de imagens por IA que usa fotos do Instagram" (jul/2026); Meta Safety Center, "Guia de segurança para mulheres: inteligência artificial" (set/2026); Resolução CFM nº 2.336/2023.
