Doutor(a), deixa eu te falar sobre algo que nunca vi ser ensinado de forma sistemática na grade curricular de nenhum curso de Medicina.
Não é gestão de consultório. Não é precificação de consulta. Não é negociação com planos de saúde. É algo anterior a tudo isso, e que deveria começar muito antes de qualquer uma dessas discussões: a construção da reputação profissional.
Já falei sobre Marketing Médico em diversas universidades de Medicina aqui no Rio Grande do Sul. E uma coisa que noto toda vez é que os estudantes entendem o argumento rápido, mas chegam a ele tarde demais. Geralmente no internato ou na residência. Raramente antes.
Eu não estou falando em captar pacientes antes de ter o CRM. Estou falando em algo diferente e mais fundamental: a presença profissional que vai determinar quem te encontra, e como, quando você finalmente estiver no mercado.
Os números ajudam a entender por que essa janela é mais curta do que parece.
O que está acontecendo com o mercado médico no Brasil
A demografia Médica no Brasil 2025, publicada pela FMUSP em parceria com o Ministério da Saúde e a AMB, registrou 575.930 médicos ativos no país em 2024, equivalentes a 2,81 médicos por mil habitantes. O estudo projetava 653.945 médicos ao final de 2025, número que já foi superado. Para 2035, a projeção é de mais de 1,15 milhão de médicos no Brasil.
Em cinco anos, foram acrescidos 116.500 novos médicos no país. Esse ritmo não vai desacelerar: o número de vagas nos cursos de Medicina brasileiros continua crescendo, com expansão especialmente nas instituições privadas.
A distribuição, como sempre, é desigual. O Norte tem 1,70 médico por mil habitantes. O Sul tem 3,31. E dentro de cada estado, a concentração nas capitais é muito maior do que no interior. Isso significa que em muitas regiões do país ainda existe escassez real de médicos. Mas significa também que em outras, especialmente nos grandes centros urbanos, o jovem médico entra em um mercado com dinâmica completamente diferente da geração anterior.
O cenário gaúcho, em detalhe
O Rio Grande do Sul ilustra bem o que acontece nos estados mais desenvolvidos. O Cremers registrou que o RS passou de 24.716 médicos em 2011 para 37.368 em 2024: crescimento de 51% em 13 anos. A região Sul como um todo tem densidade de 3,31 médicos por mil habitantes, acima da média nacional.
Mas o dado que realmente contextualiza a realidade de quem quer construir carreira em Porto Alegre é outro. Levantamento do Cremers mostrou 42% dos médicos gaúchos concentrados na capital, onde a relação chegou a 11,82 médicos por mil habitantes. No interior do Estado, essa relação cai para 2,25 por mil.
E a formação continua em ritmo intenso. Em janeiro de 2026, o Cremers informou que o RS já conta com 23 cursos de Medicina, sendo 16 privados, e cerca de 2 mil vagas abertas por ano.
A Demographics Médica 2025 traz ainda que 67,9% dos médicos gaúchos são especialistas, uma das maiores proporções do Brasil.
Para ser preciso: isso não significa que sobram médicos em todo lugar do RS. A distribuição continua desigual e em muitos municípios do interior a cobertura médica ainda é insuficiente. Mas para quem pretende construir carreira em Porto Alegre ou nas cidades de médio e grande porte, o grau de concorrência é outro. E ignorar isso é ignorar a realidade do mercado que vai encontrar.
O paciente mudou a forma de pesquisar, e as IAs mudaram de novo
Enquanto cresce o número de profissionais formados, muda o comportamento de quem busca atendimento.
Pesquisa Datafolha de 2025 mostrou que 59% dos brasileiros utilizam meios digitais para obter informações de saúde. O Google foi citado isoladamente por 38% como canal de pesquisa sobre saúde.
Mas há uma camada nova nesse comportamento que muda o argumento com ainda mais força: parte crescente do público passou a buscar profissionais de saúde nas ferramentas de inteligência artificial. ChatGPT, Gemini, Perplexity e assistentes similares já respondem a perguntas como "qual cardiologista em Porto Alegre tem boa reputação em arritmia?" ou "me indica um dermatologista especializado em psoríase em São Paulo".
E aqui está o ponto que poucos percebem: para aparecer nas respostas das IAs, o médico precisa existir na internet antes. As IAs não inventam profissionais. Elas sintetizam o que encontram nas fontes indexadas: artigos, site próprio, perfis profissionais, conteúdos publicados, entrevistas, menções em veículos de saúde. O médico que não tem nenhuma presença digital indexável não aparece nas respostas de IA da mesma forma que não aparece no Google.
Isso significa que o argumento para construir presença digital antes do diploma ficou ainda mais forte em 2026. Não é só sobre a busca tradicional no Google. É sobre todo o ecossistema de descoberta que o paciente usa antes de marcar uma consulta.
A distinção que precisa ser feita com clareza
Aqui está o ponto que nunca abro mão de esclarecer quando falo nas universidades: há uma diferença importante entre presença profissional e publicidade de serviços médicos.
Um acadêmico de Medicina não pode anunciar serviços, captar pacientes ou fazer qualquer tipo de divulgação que configure publicidade médica. A Resolução CFM nº 2.336/2023 é clara: publicidade médica é para médico com registro ativo no CRM. Ponto.
Mas existe um espaço anterior a isso, e ele é amplo.
Durante a graduação e a residência, o estudante pode construir presença profissional mostrando o que aprende, os congressos que frequenta, as pesquisas que participa, os projetos em que atua, os temas que estuda. Pode escrever sobre a área de interesse com clareza, deixando sempre explícito que é estudante. Pode criar um perfil profissional no LinkedIn e começar a construir rede com colegas, professores e profissionais de referência na especialidade que pretende seguir. Pode desenvolver aos poucos a habilidade de comunicar sobre saúde de forma acessível e ética.
Isso não é publicidade médica. É construção de carreira.
Depois do CRM, essa presença evolui para o marketing médico propriamente dito: estratégia, identidade visual, conteúdo planejado e, quando for o caso, anúncio de especialidade com o RQE correspondente. Vale saber que esse ambiente de anúncios também mudou bastante em 2026: o Meta Ads passou por alterações relevantes nas regras para saúde, com novos critérios de revisão automática, restrições de linguagem e aumento de custos que afetam diretamente quem anuncia no Instagram e no Facebook. Escrevi sobre isso em detalhe aqui. Mas esse segundo momento é muito mais fácil para quem não começa do zero no dia do diploma.
Algumas faculdades já estão se movendo
Uma coisa mudou desde quando comecei a dar essas palestras nas universidades gaúchas: o tema de carreira digital e comunicação médica já não é totalmente ausente dos currículos. Algumas faculdades e entidades de classe começaram a incluir discussões sobre ética nas redes sociais, comunicação profissional e presença digital.
O próprio Cremers vem levando debates sobre redes sociais, publicidade e ética para acadêmicos de Medicina, reconhecendo que essa preparação faz parte da formação do profissional moderno.
Mas ainda é iniciativa pontual, não estrutura curricular sistematizada. A maioria dos estudantes que forma nos próximos anos vai entrar no mercado sem ter discutido formalmente como construir uma presença profissional no digital, como aparecer numa busca de IA, como se comunicar com clareza dentro dos limites éticos da profissão.
Quem entende isso antes tem uma janela de vantagem que fecha conforme mais colegas chegam às mesmas conclusões.
O que pode ser construído antes do CRM
Reputação não se constrói em semanas. Ela se acumula ao longo do tempo por consistência. E consistência tem uma vantagem clara para quem começa mais cedo.
Durante a graduação e a residência, há ativos reais que podem ser desenvolvidos e comunicados. Produção científica e participação em pesquisas mostram comprometimento com a evidência antes de qualquer estratégia de marketing. Participação em congressos cria oportunidade de networking e de conteúdo legítimo sobre o que está sendo discutido na especialidade. O percurso de formação, com as escolhas feitas e os porquês por trás delas, já revela um posicionamento profissional antes que exista um consultório. A habilidade de comunicar sobre saúde com clareza e sem sensacionalismo, desenvolvida aos poucos, vale mais no longo prazo do que qualquer volume de posts sem substância.
O médico que chega ao mercado com dois anos de presença profissional consistente, uma rede construída e uma voz reconhecida em algum tema de interesse, não está em pé de igualdade com quem começa do zero no dia do CRM. Tem uma vantagem que não se compra com verba de anúncio.
E em um mercado onde o paciente pesquisa no Google, lê avaliações, verifica presença em redes profissionais e, cada vez mais, pede indicação para uma IA antes de decidir onde agendar, essa vantagem é mais concreta do que nunca.
Marketing médico não é transformar médico em influenciador. É fazer com que competência, formação e autoridade sejam encontradas por quem precisa delas. Porque ser um bom médico que ninguém consegue encontrar pode se tornar um problema de carreira. E esse problema começa a ser resolvido muito antes do diploma.
Você acha que posicionamento e carreira digital deveriam fazer parte da formação médica de forma estruturada? Ou o estudante deveria buscar isso por conta própria? Conta nos comentários.
Fontes: Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Ministério da Saúde e AMB, "Demografia Médica no Brasil 2025"; Cremers, "Número de médicos no Rio Grande do Sul aumenta 51% em 13 anos" (abr/2024); Cremers, "Ensino médico em risco: Cremers atua contra expansão sem estrutura" (jan/2026); Datafolha, pesquisa sobre uso de meios digitais para informações de saúde (2025); Resolução CFM nº 2.336/2023.
