Doutor(a), deixa eu te contar o que eu trouxe do cinema ontem.
Fui assistir Minha Melhor Amiga, com Ingrid Guimarães e Mônica Martelli.
Gostei muito do filme. Ri, me emocionei e, talvez por estar vivendo também essa fase da vida, me identifiquei com várias situações.
Mas saí do cinema pensando em outra coisa.
Quem trabalha com comunicação e saúde precisa aprender a observar o comportamento das pessoas também fora das redes sociais. Na CF Marketing Médico atendemos muitas ginecologistas e profissionais que cuidam da saúde da mulher. Por isso, assistir a um filme como esse também acaba sendo, de certa forma, um exercício de escuta.
Uma leitura cultural, não um estudo científico
Não é um estudo científico. Não é um estudo de caso. É uma leitura cultural sobre o que está ocupando espaço na vida das mulheres.
O filme coloca duas mulheres na faixa dos 50 anos como protagonistas de suas próprias histórias. Mulheres que são mães, profissionais, amigas, que têm desejos, dúvidas, relações, inseguranças e uma vida que não terminou porque chegaram à meia-idade.
Talvez parte do enorme sucesso do filme esteja justamente aí. Lançado no início de setembro, Minha Melhor Amiga ultrapassou 3 milhões de espectadores em menos de três semanas.
Existe uma mulher querendo se reconhecer nas histórias que vê.
Do silêncio ao excesso de informação
E vejo algo semelhante acontecendo quando o assunto é menopausa.
Durante muito tempo, praticamente não se falava sobre ela. Hoje, abrimos o Instagram e encontramos vídeos sobre reposição hormonal, libido, sono, ganho de peso, perda de massa muscular, pele, cabelo, saúde mental, sexualidade e envelhecimento.
Isso é positivo porque tira um tema importante do silêncio.
Mas cria um segundo desafio: quanto dessa informação é realmente confiável?
Um artigo publicado em 2025 na Obstetrics & Gynecology chamou atenção justamente para o crescimento exponencial do conteúdo sobre menopausa nas redes sociais e para a presença de informações, produtos e terminologias sem respaldo adequado nas evidências.
Outro estudo analisou mil publicações no Instagram relacionadas à menopausa. Entre elas, 66,1% promoviam suplementos de marcas e apenas 18,3% tinham sido publicadas por profissionais de saúde credenciados.
Ou seja: mais informação não significa necessariamente melhor informação.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que a menopausa pode afetar o bem-estar físico, emocional, mental e social, e destaca a necessidade de ampliar o acesso das mulheres a informações e cuidados de qualidade.
A responsabilidade de quem comunica saúde
E é aqui que vejo uma enorme responsabilidade para médicos e profissionais da saúde.
As mulheres estão procurando respostas. Estão falando sobre menopausa. Estão compartilhando experiências. Estão consumindo vídeos, podcasts, reportagens e conteúdos nas redes sociais.
A questão é: quem está ocupando esse espaço de informação?
Porque comunicar saúde não deveria significar simplesmente produzir mais conteúdo. Deveria significar produzir conteúdo capaz de transformar dúvida em compreensão, excesso de informação em orientação e medo em uma conversa responsável com um profissional qualificado.
No final, talvez tenha sido isso que eu trouxe comigo depois do cinema.
Para entender uma paciente, não basta conhecer apenas sua doença ou sua queixa. É preciso entender também a mulher, a fase de vida que ela está atravessando e as perguntas que ela está fazendo quando não está dentro do consultório.
E, para quem trabalha com comunicação médica, isso também é pesquisa. É escuta.
Fontes: Obstetrics & Gynecology (2025), "Menopause and social media: an analysis of content quality"; Faubion SS et al., análise de publicações sobre menopausa no Instagram; Organização Mundial da Saúde, "Menopause" (2023). Dados de bilheteria: Agência Brasil / imprensa especializada, setembro de 2026.
