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Crescimento Sustentável

Quando 73% das consultas se resolvem sem presencial, o que define qual médico o paciente vai escolher?

Por Claudia Flehr · 2 de junho de 2026 · 7 min de leitura

Quando o Painel de Indicadores da Saúde Digital — desenvolvido pela Saúde Digital Brasil (SDB) em parceria com o Datalab da Serasa Experian — revelou que 72,96% das teleconsultas são resolvidas sem encaminhamento presencial, a maioria dos médicos leu o dado como uma ameaça.

Faz sentido. Se quase três em cada quatro consultas digitais se fecham sem que o paciente precise ir a um consultório, o raciocínio imediato é: "o presencial está sendo substituído."

Mas esse não é o problema. O problema real — e muito mais urgente — é outro: qual médico o paciente encontra quando decide buscar atendimento digital?

O que o dado realmente diz

O Painel SDB consolidou quase 8 milhões de atendimentos digitais realizados no Brasil entre 2020 e 2025. O número de consultas remotas cresceu 15 vezes no período — de 200 mil em 2020 para mais de 3,1 milhões em 2025. Outros números relevantes do mesmo levantamento:

  • 98% dos atendimentos aconteceram por vídeo
  • 36% geraram solicitação de exames
  • 26% emitiram atestados
  • 15% prescreveram medicações controladas
  • Apenas 6% terminaram com encaminhamento para outro especialista ou atendimento presencial

Esse dado de 6% de encaminhamento é o que mais importa aqui. A telessaúde não está substituindo o médico — está substituindo o médico invisível digitalmente.

O paciente que precisa de um especialista com maior complexidade, que tem uma condição crônica, que busca uma segunda opinião qualificada ou que quer um acompanhamento longitudinal de qualidade — esse paciente procura um nome. Procura uma referência. E encontra quem está posicionado para ser encontrado.

A armadilha do médico invisível

Existe uma suposição silenciosa que muitos médicos carregam: a de que o bom trabalho clínico, por si só, gera fluxo de pacientes. E durante décadas, em muitos contextos, isso foi verdade. O médico competente enchia a agenda por indicação, por presença em hospital de referência, por reconhecimento dentro de uma comunidade médica local.

Esse mecanismo não desapareceu. Mas ele deixou de ser suficiente.

O paciente de 2026 que busca um especialista não começa pela indicação do vizinho. Ele começa pelo Google. Vai para o Instagram. Verifica o LinkedIn. Lê o que esse médico produziu, o que ele pensa sobre o tema que aquele paciente tem, se esse profissional parece alguém que entende especificamente do que ele precisa.

O médico que não aparece nessa busca não perde para um concorrente melhor. Ele simplesmente não existe para aquele paciente.

E quando esse mesmo paciente faz uma teleconsulta por uma plataforma genérica e o atendimento resolve o problema — o que acontece com 73% dos casos — ele não volta. Ele nem sabe com quem falou. O médico virou um serviço anônimo.

Telessaúde não compete com o médico posicionado

Aqui está o ponto que raramente aparece no debate: a telessaúde é neutra em relação ao posicionamento. Ela amplifica o que já existe.

O médico com autoridade digital construída — que publica conteúdo consistente, que tem uma linha editorial clara, que é reconhecido em sua especialidade — usa a telessaúde como canal de expansão. Ele amplia o alcance geográfico sem abrir mão da identidade. Pacientes de outros estados o buscam porque já o conhecem.

O médico sem posicionamento digital usa — ou é usado por — plataformas de telessaúde como prestador de serviço. Ele atende, resolve, e é substituível. A plataforma retém o paciente. O médico perde a relação.

O que diferencia os dois não é a competência clínica

É uma decisão estratégica sobre como construir a presença digital. Três diferenças práticas:

  • Autoridade de especialidade: o médico posicionado comunica claramente para quem ele trabalha, qual o problema que ele resolve e por que sua abordagem é diferente. Ele não tenta falar com todo mundo.
  • Presença consistente: não é sobre frequência de posts — é sobre profundidade. Um conteúdo por semana bem construído vale mais do que cinco superficiais.
  • Canal próprio: ter um site, um blog, uma presença que não depende exclusivamente de algoritmo de terceiros. A plataforma de telessaúde pode mudar as regras do jogo. O seu domínio, não.

O que a expansão da telessaúde exige do seu posicionamento agora

O Ministério da Saúde lançou em abril de 2026 um painel estratégico para monitorar a telessaúde no SUS, centralizando dados de oferta e produção em escala nacional. Isso sinaliza uma coisa clara: a saúde digital deixou de ser tendência e virou infraestrutura.

Nesse contexto, a pergunta que cada médico precisa responder é direta: quando o paciente que precisa de você fizer uma busca digital amanhã, o que ele vai encontrar?

Se a resposta for "nada relevante", o custo disso vai crescer na mesma velocidade que a telessaúde cresce. Não por causa da concorrência de outros médicos — mas porque plataformas, algoritmos e atendimentos anônimos vão preencher o espaço que você deixou vazio.

Posicionamento digital médico não é sobre ser famoso. É sobre ser encontrável, reconhecível e relevante para o paciente certo, no momento certo. Com 3,1 milhões de teleconsultas realizadas só em 2025, esse momento já chegou.

Conclusão

O dado do Painel SDB não é um alerta para o futuro — é um retrato do presente. A telessaúde já é parte da jornada do paciente brasileiro, e ela vai crescer. A questão não é se você vai fazer parte desse cenário, mas em qual posição.

Médico que aparece como referência digital captura esse crescimento. Médico invisível vira mais um prestador em uma plataforma que não tem nome.

A diferença entre os dois não começa no consultório. Começa em como você decide — ou não decide — construir sua presença.


Fonte: Painel de Indicadores da Saúde Digital — Saúde Digital Brasil (SDB) e Serasa Experian, 2025–2026. Disponível em: saudedigitalbrasil.com.br/painel-de-indicadores